Palavra:   A Lenda de Arguim
Lição:   Literatura Tradicional - Narrativo
Texto:   É voz corrente, entre a gente do Povo, no Arquipélago da Madeira, que dos lados do Porto Santo, em certas tardes, quando o sol desce para o ocaso, aparece no horizonte uma Ilha envolta em brumas, onde o Rei Desejado dorme desde a jornada lutuosa de Alcácer - Quibir o seu sono de encantamento, até que uma Alma-Forte consiga abordar aquelas paragens...
E a credulidade popular é tão sincera e espontânea que todos os anos, na noite de São João, quando o Povo desce do arraial, vai ao mar «ver a sua sombra» ou ouvir os clamores distantes da Cidade Encantada, perdidos entre o marulhar das ondas, é vulgar soarem as trovas regionais invocando o Rei Dom Sebastião e pedindo-lhe que deixe o seu encantamento de Arguim para vir à terra que lhe serviu de berço e para o Povo que tanto o amou... Arguim era um castelo na costa Africana onde já tremulou a bandeira dos Reis de Portugal. Quando em 1550 a Diocese da Madeira foi apeada da imponência do seu pedestal de Sé Metropolitana, os Prelados ficaram usando apenas o título de Bispos da Madeira, Porto Santo, Desertas e Arguim.
Como o velho Castelo Africano deu o seu nome a essa Ilha Misteriosa que vive na lenda e que de geração em geração vai correndo entre o Povo Madeirense, não sei bem precisar... O Sebastianismo, durante os primeiros anos que se seguiram ao desastre de Alcácer-Quibir, foi bem uma fé uma crença no regresso do Heróico Rei que pelo engrandecimento de Portugal deu o seu sangue a beber aos areais Africanos. Porém, desde que o tempo tornou materialmente impossível a hipótese do cativeiro do Monarca e do seu regresso à Pátria, o Sebastianismo passou a sintetizar uma vontade e uma esperança imorredoras, acalentadas e avolumadas dia a dia na Alma Popular que vivia sonhando o ressurgimento nacional e a emancipação de Castela. Foi abraçando este critério que o celebre Jesuíta e insigne orador que foi o Padre António Vieira e Dom João de Castro evidenciaram o seu sebastianismo. Na preparação de atmosfera para o 1.º de Dezembro de 1640, o Encoberto, o espírito sebastianista que os Patriotas agitavam, não tinha outro fito que levar o Povo para os dias da liberdade e a Nação para um porvir honroso e cheio de gloria... Hoje mesmo, pelos nossos campos, ainda há quem espere o milagre do desencantamento do Rei Desejado... E esta esperança que a Alma simples do Povo concretiza, revestindo-a com lendas e fantasiosas descritivas, é o motivo dessa lenda de Arguim que no Arquipélago Madeirense ainda hoje tem voga... Resumidamente, essa e outras lendas, nascidas em volta do Sebastianismo, não significam mais, que o grande amor de todo um Povo a uma Pátria que todos nós desejamos ver grande e redimida...

Página: noticia.nesi.com.pt
Selecção de texto: Rui Honorato e Licínia Romeira
Ilustração: Maria José Jardim
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