Palavra:   A Espada de D. Sebastião
Lição:   Literatura tradicional - Narrativo
Texto:   Dobrando, para o norte, a Ponta de S. Lourenço, que é um dos extremos da Ilha da Madeira na sua maior extensão, a costa abre-se em grandes enseadas onde o mar repousa um pouco da sua luta incessante contra os rochedos impassíveis... Ao fundo da mais ampla das enseadas, ao abrigo de um rochedo imenso, que de súbito se levanta do mar e se interna pela terra, fica o pequeno povoado do Porto da Cruz. Apertada pelos rochedos de negra lava petrificada pouca expansão tem conseguido ter a vila. Mas os campos que a cercam são talvez os mais ricos e mais belos de toda a Ilha. As serras que coroam os cimos dos montes altíssimos estão revestidas de frondosas árvores centenárias e pelos abismos despenham-se espumantes caudais de água límpida que, depois, descendo pelos vales verdejantes vão precipitar-se no mar...
Foi nesse delicioso encanto que os meus antepassados, da minha família materna, se vincularam à terra, onde formaram grande e poderoso Morgadio. No Porto da Cruz, nesse lindo e velho Solar do Lombo dos Leais, passei os melhores anos da minha infância, dos quais me não posso recordar sem uma saudade toa"o funda que mal a sei exprimir...
Fronteiro ao «Lombo dos Leais» avoluma-se o dorso gigantesco de um Titan de pedra e lava a quem chamam a Penha de Águia. Olhando dos lados do Faial, a Penha de águia apresenta uma encosta acessível, muito verde e mesmo fértil... Mas sobre o Porto da Cruz é árida, a prumo, rasgando-se em grandes cavernas onde nunca entrou um ente humano e que ao romper do dia ou ao anoitecer lembram grandes olhos negros e sombrios dos monstros das lendas que detiveram durante tantos tempos a audácia dos navegadores e a expansão da Europa... Sobre o mar, onde a rocha corta verticalmente, numa só linha, como se engenhos de homens assim a talhassem, destaca-se uma elevação, que serviu de motivo à fantasia popular para criar a lenda de que a espada de El-Rei Dom Sebastião ali está enterrada... E o bom Povo lastima-se de não poder subir ao cabeço magico e, tomando pelos copos a Espada encantada, arranca-la da rocha, e trazer com o Rei Desejado o bem e engrandecimento desta Pátria...
E a Penha de Águia, a quem muitos chamam Pena de Águia, na sua corpulência de Titan, guarda a graça mimosa de uma lenda patriótica que traduz bem a esperança e a fé imorredoras que vincadamente marcam a Raça Luza...

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Selecção de texto: Rui Honorato e Licínia Romeira
Ilustração: Maria José Jardim
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