Palavra:   A Lenda de Machim
Lição:   Literatura Tradicional - Narrativo
Texto:   Muitos documentos antigos e relatos de viagens falam desta linda história de amor.
Machim era um jovem e belo cavaleiro inglês, forte e corajoso, mas sem fortuna. Apaixonou-se por uma menina da alta nobreza chamada Ana d'Arfet. Ela correspondia ao seu amor. Enviavam mensagens um ao outro por uma ama e combinavam encontros secretos. Andavam tão entusiasmados que não conseguiam esconder o que sentiam e, a certa altura, os pais dela descobriram e rebentou um escândalo, pois o casamento entre eles não era possível visto que ela pertencia a uma classe social superior à de Machim.
Os pais conseguiram que o próprio rei de Inglaterra arranjasse um noivo de alta linhagem para casar com a filha. Ana não teve outro remédio senão obedecer aos pais, mas não se conformou. Machim, como era um homem de acção, não desistiu do seu amor e, com a ajuda de amigos e parentes, traçou um plano de fuga para França.
No maior segredo, mandou-lhe a proposta pela ama do costume, marcando-lhe encontro no porto da cidade de Bristol. Aí embarcariam num navio de mercadores, quando a tripulação estivesse em terra. Ana aceitou. Fugiu de casa de madrugada, levando consigo apenas um crucifixo e as suas jóias.
Machim e os companheiros esperavam-na num batel e, mal ela chegou, remaram para um navio que estava parado e sem ninguém, soltaram logo a vela e fizeram-se ao mar.
Uma tempestade enorme arrastou-os para o largo, e como não tinham com eles piloto, perderam-se e andaram à deriva, ao sabor do vento e das correntes. Passados alguns dias avistaram uma terra desconhecida, toda coberta de arvoredo, mas desabitada. Aí deitaram âncora numa grande enseada e desembarcaram.
A partir daqui há duas versões da história: uma termina bem e a outra, pelo contrário, resulta numa tragédia:

Primeira versão:

Os dois apaixonados encontraram abrigo num enorme tronco oco de uma árvore, água com abundância e frutos silvestres para matar a fome. Na manhã seguinte descobriram que o barco e os companheiros tinham desaparecido, talvez levados pelo vento ou por algum encanto. Mas não se importaram: estavam juntos, tinham um abrigo e podiam construir mesmo uma cabana onde viver, não lhes faltava comida e água...
O local onde o parzinho desembarcou e viveu veio a chamar-se Machico em homenagem a Machim.

Segunda versão:

Ana desembarcou na ilha porque se encontrava doente de tão enjoada, pois a viagem tinha sido terrível. Machim resolveu então que ficariam ali alguns dias para descansarem antes de prosseguirem viagem. Ana e Machim não precisaram de construir qualquer abrigo porque encontraram uma enorme árvore oca, tão espaçosa que puderam pernoitar nela.
Mas na terceira noite que lá passaram levantou-se um vento tão forte que o barco se soltou e partiu, levando a maioria dos companheiros, que nada puderam fazer senão deixar-se arrastar.
Na ilha, verificando o desaparecimento da nau, Ana d'Arfet entrou num tal desespero que nunca mais falou e morreu passados poucos dias.
Machim, louco de dor, pediu aos poucos companheiros que tinham ficado na praia que partissem no pequeno barco a remos que lhes restava e que tentassem alcançar terra. Ele queria morrer ali e ficar sepultado ao pé da sua amada, pois a vida já não lhe interessava. Os amigos ficaram com ele, sempre a tentar convencê-lo a partir também, mas, passados uns dias, Machim morreu. Colocaram as duas sepulturas uma ao lado da outra, encimadas por uma cruz, e lá partiram à aventura, em demanda do continente.

Conclusão:

O final desta história é mais ou menos idêntico para as duas versões: os companheiros de Machim , levados por correntes marítimas, foram dar a terras árabes e aprisionados. Entre os cativos encontravam-se marinheiros castelhanos e/ou portugueses que tomaram conhecimento desta aventura. Mais tarde foram libertados ou capturados por barcos portugueses e um deles ter-lhes-á contado a história.
Há uma versão que diz mais: terá sido o próprio João Gonçalves Zarco o capitão do navio que teve conhecimento destes factos e terá entusiasmado o Infante D. Henrique, que se encontrava em Sagres, a irem em busca dessa terra para dela tomarem posse. Assim se fez, com autorização do rei D. João I.

Página: members.fortunecity.com
Selecção de texto: Rui Honorato e Licínia Romeira
Ilustração: Maria José Jardim
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