Palavra:   O Sentimento de Si
Lição:   Narrativo
Texto:   Dada a magnitude dos temas ligados à emoção e ao sentimento, poder-se-ia esperar que tanto a filosofia como as ciências da mente e do cérebro se tivessem dedicado ao seu estudo.
Surpreendentemente, só agora isso começa a acontecer. A filosofia, apesar de David Hume e da tradição que se iniciou com ele, nunca confiou na emoção, tendo-a relegado em grande parte para o domínio animal. A ciência saiu-se melhor durante algum tempo, mas também perdeu a oportunidade.
Nos finais do século XIX, Charles Darwin, William James e Sigmund Freud4 escreveram profusamente sobre vários aspectos da emoção e deram-lhe um lugar privilegiado no discurso científico. Porém, ao longo do século XX e até muito recentemente, tanto a neurociência como as ciências cognitivas comportaram-se de forma pouco amigável com a emoção. Darwin realizou um extenso estudo sobre a expressão da emoção nas diferentes culturas e nas diferentes espécies e, embora considerando as emoções humanas como vestígios de estádios anteriores da evolução, respeitou a importância deste fenómeno. William James apercebeu-se do problema com a sua clareza proverbial e realizou um estudo que, apesar de incompleto, permanece uma pedra angular. E Freud entreviu o potencial patológico das emoções alteradas e anunciou a sua importância em termos inequívocos.
Darwin, James e Freud foram pouco explícitos acerca da componente cerebral das suas ideias, como era de esperar, mas um dos seus contemporâneos, Hughlings Jackson, foi mais preciso. Dando o primeiro passo em direcção a uma possível neuroanatomia da emoção, sugeriu que o hemisfério cerebral direito tem uma influência dominante na emoção humana, comparável à que o esquerdo exerce na linguagem.
Teria sido razoável esperar que no início do novo século as ciências do cérebro tivessem incluído a emoção na sua agenda de trabalhos e resolvido os seus problemas. Porém, isso nunca chegou a acontecer. Pior ainda, o trabalho de Darwin foi esquecido, a proposta de James foi injustamente atacada e sumariamente rejeitada, e a influência de Freud fez-se sentir noutra direcção. Ao longo da maior parte do século XX, a emoção não foi digna de crédito nos laboratórios. Era demasiado subjectiva, dizia-se. Era demasiado fugidia e vaga.
Estava no pólo oposto da razão, indubitavelmente a mais excelente capacidade humana, e a razão era encarada como totalmente independente da emoção.

Damásio, António R., O Sentimento de Si – O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência, 8.ª ed., Lisboa, Publicações Europa-América, 2000
Página: ME
Selecção de texto: Rui Honorato e Licínia Romeira
Ilustração: Maria José Jardim
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