Palavra:   Texto de Luísa Costa Gomes
Lição:   Narrativo
Texto:   O Janeiro tirou do bolso o resto de um pente que passou pelos quatro cabelos e levantou-se, pronto a começar o dia.
– Enfrentar, – disse ele ao Carlos cabisbaixo – enfrentar frontalmente, é esse o adjectivo, frontalmente, e de cabeça erguida. Olha-me este espaço todo, ó Carlos, o que aqui não se construía. Prédios, arranha-céus, como se dizia no meu tempo, piscinas nos telhados. O futuro sorri-nos, o futuro pertence-nos, o futuro deve-nos muito. Isto é especulativo, sem dúvida, podes achar que é especulativo, mas o que é que não é? O que passou, passou, adiante, é no futuro que temos de apostar.
Puseram-se a caminho. O Carlos dava a direita a Janeiro por respeito, mas ouvia-o distraído, preocupado, atento mais às pedras do passeio. De repente baixou-se para apanhar uma beata.
– Ora providencial, – disse o Janeiro tirando-lha das mãos. – A primeira do dia, a que nos sabe melhor. Sabes o que é o providencial? A gente vai a passar e ali está ela, é o providencial.
Parou para pedir lume a um homem que lhe deixou ficar a carteira de fósforos, estendendo-lha com dois dedos e seguindo sem olhar para trás. Com isto, estavam na Praça do Império.
Na esplanada do café, Janeiro ficou discretamente na esquina enquanto o Carlos se aventurava a fazer o peditório. Janeiro olhava o relvado à sua frente e, vendo-o monumental,imaginava grandes coisas. Depois o companheiro voltou, entregou-lhe a percentagem que ele contou por precaução e, seguindo ambos lado a lado, Janeiro acenou de longe aos seus contactos, dois empregados generosos que fechavam os olhos às actividades não muito bem-vistas do protegido Carlos.
– Sr. Janeiro, – disse o tímido por fim – é o meu tio.
– O teu tio o quê? Outra vez o teu tio?
– O meu tio que vive em Chelas, o que tem a oficina. Diz que me dá trabalho, ele que está doente e não tem filhos, até tem lá uma cama que também me subaluga. Eu queria pedir ao senhor Janeiro se me deixava ir...
– Trabalhar? – escandalizou-se o mestre. – Tu queres trabalhar numa oficina?
– Eu cá não me importa.
– E ele paga-te, esse teu tio de Chelas?
– Não é muito, não é muito... – lamentou-se o Carlos, que já estava a ver o Janeiro exigir a sua comissão.
– Mas como é que eu posso, filho? Eu não posso! Como é que eu posso? – perguntou afinal o Janeiro. – Ir para Chelas, tão longe do centro! Se me dissesses, vou para o Paço do Lumiar, vou para o Parque dos Príncipes, isso sim, vale a pena, são nomes que apetecem logo, vou para a Quinta das Mil Flores! isso é que é nomes! Mas nós estamos bem, Carlos, e vamos melhorar mais ainda, esse é que é o paradoxo! Olha-me para esta avenida, para este espaço aberto, que é que tu queres mais?
– Faz muito frio, senhor Janeiro.
– Isso é só no Inverno e o Inverno passa depressa.
– Mas dormir ao relento, senhor Janeiro, com a minha tosse...
Ao Janeiro desagradava esta conversa que de vez em quando o Carlos arranjava para o incomodar. Impacientava-se com a choraminguice do rapaz, apetecia-lhe enxotá-lo para longe quando ele se chegava mais para lhe falar, trotando magrinho atrás dele como um cão.
– Tanta coisa boa, os gajos lá de fora a pagarem-nos tudo, a mandarem as massas à gente para isto e para aquilo, é só pedir por boca, e tomem lá para as pontes e tomem lá para as estradas. E este põe-se a chorar! É gente que não sabe a sorte que tem!

Gomes, Luísa Costa, «À grande e à francesa», Contos Outra Vez, Lisboa, Cotovia, 1998
Página: ME
Selecção de texto: Rui Honorato e Licínia Romeira
Ilustração: Maria José Jardim
Voz: