Palavra:   Texto de Teresa Alves
Lição:   Narrativo
Texto:   Quando falamos de paisagens pensamos, em primeiro lugar, nas paisagens que podemos observar em virtude da luz natural.
As paisagens nocturnas merecem a nossa atenção quando revelam algo de particular ou de espectacular – a beleza da mancha resultante da iluminação, um vulcão em actividade, uma trovoada, um período festivo com muita luz, como as luzinhas de Natal, um fogo de artifício ou as fogueiras dos Santos Populares – ou seja, quando acontece algo que contraria a escuridão e cria um acontecimento com luz. Só muito raramente procuramos desfrutar a noite em busca da escuridão e, mesmo assim, o que queremos realmente são as condições ideais para podermos apreciar o luar ou o brilho das estrelas. A importância da luz no nosso imaginário é tal que raramente conseguimos beneficiar plenamente de outras paisagens que não sejam as visuais. Das paisagens dos sons e dos cheiros só muito raramente se fala e, ainda menos, se desfruta.
No imaginário popular, a noite esteve sempre associada a todos os perigos insegurança, criminalidade, desconforto... Até à vulgarização da iluminação, assim que o Sol desaparecia, as pessoas refugiavam-se em casa. Os espaços públicos só eram usufruídos após o pôr-do-sol, quando a luz artificial, como uma fogueira, ou a luz natural, como o luar, o permitiam. Em Portugal, a iluminação pública surge em 1780, em Lisboa, e utilizava o azeite como combustível; em 1848 foram introduzidas as primeiras luminárias1 a gás; em 1878 surgiram as primeiras experiências com a electricidade, que só passa a ser utilizada sistematicamente em 1929. [...]
A iluminação começou por ter apenas funções de visibilidade e de segurança, assegurando uma melhor leitura do espaço à noite. Foi na Exposição Mundial de Paris, de 1900, que a luz surgiu pela primeira vez associada ao lazer, à criação de prazer e de bem - estar, à possibilidade de uma apropriação nocturna da cidade por todas as pessoas. A noite continuava a despertar medos, mas, devido a uma série de mudanças sociais e culturais, teve início uma nova etapa: a noite passa a estar associada também a aspectos positivos. É o momento do descanso, do lazer, da possibilidade de fruição do tempo fora do trabalho.

Alves, Teresa, «Geo grafias da Luz», in Luzboa – A Arte da Luz em Lisboa,
Página: ME
Selecção de texto: Rui Honorato e Licínia Romeira
Ilustração: Maria José Jardim
Voz: