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Arte Sacra na Madeira

(Na rota do açúcar e do vinho)

A Arte é uma forma de expressão e comunicação criada pelo Homem. É uma necessidade que permite expressar conhecimentos, sentimentos, emoções, medos, fantasias, sonhos, crenças, através de técnicas e formas como a Arquitectura, a Escultura, a Pintura, a Música, a Dança, a Literatura, o Teatro, a Tapeçaria, o Fresco, a Cerâmica, o Vitral, etc. As manifestações artísticas tornam-se em documentos, testemunhos, resíduos históricos, artísticos, culturais, do Homem, de um grupo ou de uma sociedade. O estudo destes artefactos permite compreender os conceitos de Belo que o Homem foi traçando ao longo da sua existência.

Desde os tempos mais remotos que o Homem procurou registar, em diversas formas de Arte, as suas preocupações perante o mundo inteligível e o mundo misterioso. Esta dicotomia abraçou o Homem e obrigou-o a procurar nas formas símbólicas caminhos para encontrar o sagrado. “É do sagrado, com efeito, que todo o crente espera todo o socorro e todo o êxito. Por isso, o símbolo remete, sempre, para algo: uma experiência, uma vivência. O símbolo evoca.

A Arte Sacra cristã estruturou os seus caminhos para educar e orientar o Homem nas suas buscas constantes de verdade e perfeição espirituais. A imagem (ou a representação / reprodução) tornou-se mediadora entre o crente e o divino. As crises entre os iconoclastas e os iconolatras foram inevitáveis: os primeiros eram contra as imagens e os segundos, seus defensores. A Lei do Antigo Testamento contém, explicitamente, a proibição de representar o divino através de imagens, mas a necessidade de representar o texto bíblico acabou vencedora no Segundo Concílio de Niceia, em 787 – era a legitimação da imagem e do seu culto. Os espaços e as imagens da Arte Sacra levam à oração e à contemplação.

A Madeira possui um rico e vasto espólio de Arte Sacra. Muitas peças encontram-se expostas num espaço peculiar, o Museu de Arte Sacra do Funchal, ou espalhadas pelas Igrejas, Ermidas, Capelas, Altares e Oratórios – os seus espaços naturais. A História da Arte Sacra na Madeira remonta à História do Povoamento da Ilha.

Este povoamento iniciou-se em 1425. As duas capitanias constituídas, Funchal e Machico, permitiram a administração da Ilha. O cultivo de trigo e cana-de-açúcar e mais tarde de vinha mediterrânea permitiu o desenvolvimento económico do arquiepélago.

A exploração da vinha esteve a cargo dos governadores da Ilha, das famílias abastadas, como também dos conventos. Exemplo é o caso da Companhia de Jesus que é a fundadora do Colégio dos Jesuítas do Funchal e das freiras de Santa Clara.

Entre 1452 e 1454 o Funchal teve o seu primeiro Foral. Em 1493 inicia-se a construção da Sé, com a designação de igreja nova, cuja elevação a Sé Catedral data de 1514. O ano de 1508 representa a elevação do Funchal a categoria de Cidade e em 1514 torna-se sede de bispado. Decorre no presente as festividades que comemoram, até 2008, os 500 anos da Cidade do Funchal.

É através do Funchal e o seu porto, centros de passagem obrigatória de então, que comerciantes e diversas famílias portuguesas e estrangeiras se fixam na Madeira. As actividades comerciais projectaram a Ilha em terras internacionais. O Funchal tornou-se numa cidade portuária de apoio à navegação e exportação de produtos e onde se desenvolveram actividades sócio-económicas (sempre com base no açúcar e no vinho).

O crescimento populacional foi notável. Durante todo o século XVII, por exemplo, o número de paróquias, curatos e vigários para servir as populações aumentou, como também as edificações de igrejas, capelas, altares e oratórios. Existiam dez paróquias em 1600, mas em 1630 o número aumentou para trinta e seis. Foram identificadas neste século quatro igrejas e noventa e três ermidas, o que é demonstrativo do "perfil" das pessoas que habitavam na Ilha e do papel da Igreja junto das populações.

Foi a prosperidade económica, primeiro assente na produção açucareira (de meados do século XV a meados de XVI cuja estrutura sócio-económica assentava na casa, engenho e capela, incluindo as levadas e canaviais) e depois na produção vinícola (a partir da segunda metade do século XVII onde se redefine a malha social - o proprietário, o agricultor e o mercador são individualidade diferentes, e a economia assenta na casa, lagar, loja e terras de vinhas) que permitiu a construção de igrejas, ermidas, altares e oratórios, ricamente ormanentados com retábulos, talha, objectos de prata e paramentaria.

A sociedade madeirense dos séculos XV a XVIII, extensivo ao século XIX, foi marcada por assimetrias sociais assentes nas díspares condições económicas. Na cidade do Funchal predominava uma sociedade proprietária e comercial, enquanto que nas zonas rurais encontramos os pequenos proprietários, assalariados e colonos.

As famílias nobres dominavam a vida social, política, económica e até a religiosa. Toda a malha social e política girava em torno da Sé Catedral, do Paço Episcopal, da Câmara do Funchal e da Santa Casa da Misericórdia. O núcleo religioso de grande peso espiritual (e também económico) era o Colégio dos Jesuítas e o Convento de Santa Clara, seguidos de São Francisco, das Mercês, da Encarnação e Recolhimento do Bom Jesus, que foram acumulando bens patrimoniais através das doações tornando-se mesmo em grandes "empresas agrícolas" (Rui Carita).

O Funchal tinha-se tornado num porto internacional, de grande movimento comercial, o que permitiu o contacto com várias nacionalidades (comerciantes e mercadores), mas por outro lado ficou sujeito aos ataques e roubos de piratas e corsários, que colocavam em perigo não só as mercadorias e bens, mas também as populações do arquipélago.

Houve, desde muito cedo, por parte dos responsáveis da Igreja na Madeira, a preocupação com os templos sagrados e a sua "decência".

A Arte Sacra madeirense, encomendada a oficinas estrangeiras, nacionais ou regionais, seguiu os preceitos, as ordens e determinações do Concílio de Trento e das Constituições Sinodais, respeitando a imagem como veículo de transmissão dos ideários da igreja católica.

Devido ao contacto com as mais diversas nacionalidades através do comércio (porto do Funchal), a Madeira estava sujeita a receber obras (pinturas, iluminuras, gravuras, livros,...) que poderiam colocar em perigo as convenções tridentinas. Assim, também aqui existiu o cargo de "visitador das naus" (regulado por D. Henrique a 21 de Outubro de 1561), cuja função era controlar as obras que entravam na Ilha para evitar as heresias. Este cargo foi sempre disputado entre o reitor do Colégio e o vigário geral do bispado. A entrada nos barcos estava reservada aos oficiais da Alfândega na presença do visitador do Santo Ofício.

O grande espólio de Arte Sacra da Madeira encontra-se no Museu de Arte Sacra do Funchal (MASF), fundado em 1955, sob a égide do Bispo D. António Manuel Pereira Ribeiro e por esforços desenvolvidos pelo Engenheiro Peter Clode e o Cónego Francisco Camacho. Este museu está instalado no antigo Paço Episcopal, cuja construção inicial data do Século XVII.

Na organização do Museu distinguem-se dois núcleos de Arte Sacra. O primeiro é o da Arte Flamenga com obras datadas desde os finais do século XV até à primeira metade do século XVI e que corresponde ao apogeu da produção e mercado da cana-de açúcar na Madeira e a suas relações comerciais com a Flandres. Este núcleo é de relevada importância pela qualidade artística das obras de pintura (e as suas grandes dimensões), de escultura e ourivesaria. O segundo núcleo reporta-se à Arte Portuguesa encomendada e produzida desde os inícios do século XVI até meados do século XVIII, momentos de grande desenvolvimento económico da vinha na Ilha, que permitiu a encomenda de obras significativas por parte da Igreja e diversas famílias, até ás leis pombalinas. Deste núcleo destacam-se as obras de pintura, escultura, ourivesaria e rica paramentaria.

O espólio do Museu é fruto de uma recolha de diversas Igrejas, Capelas, Altares e Oratórios que se encontravam dispersos pela Ilha da Madeira. Muitos espaços sagrados foram danificados pela natureza (aluviões, insectos e formiga branca), mas também pela incúria dos homens (incêndios, ataques dos corsários, abandono). No entanto, hoje, é ainda possível observar na Madeira e Porto Santo muitas obras de arte sacra nos seus espaços “naturais”, como igrejas, pequenas ermidas, altares e capelas privadas. A Arte Sacra na Madeira pretendeu evangelizar e colocar a Arte ao serviço do culto e da cultura.



Pintura Flamenga / MASF

 
 

 
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